sábado, 20 de novembro de 2010

Entrada Triunfal em Salvador após a guerra.

Bernardino José de Souza, o notável historiador do Ciclo do Carro de Bois no Brasil, descreve a participação de Maria Quitéria em defesa da foz do rio Paraguaçu, quando ela e outras mulheres combateram “com água até os seios”. Integrando a Primeira Divisão de Direita, a destemida feirense combateu em Conceição, Pituba e Itapuã. Consta que tomou de assalto uma trincheira, fazendo prisioneiros e escoltando-os, sozinha, ao acampamento.
O Governo da Província dera-lhe o direito de portar espada. Na condição de cadete, Quitéria envergava original farda azul com saiote por ela própria modelado, além de vistoso capacete com penacho. Assim altiva e digna de general, entrou em Salvador, com as forças do 2 de Julho, finm da  guerra oferecida às tropas do General Madeira.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O SOLDADO MEDEIROS

Oléo sobre tela - D. Failutti
Pelos tropeiros chegam-lhe notícias do levante de Cachoeira, a Heróica, contra provocações de tropas portuguesas, a partir, sobretudo, do incidente com uma canhoneira que, fundeada na barra do Paraguaçu, alvejou a cidade. Emissários percorrem o sertão da Bahia à procura de voluntários e contribuições financeiras.
Contra a vontade paterna, Maria Quitéria sai de casa e, em roupas de homem, cedidas pelo cunhado José Cordeiro de Medeiros, marido de Teresa Maria, alcança Cachoeira, alista-se num regimento de artilharia e passa em seguida à infantaria. Ali, no Batalhão dos Voluntários do Imperador, também chamado Periquitos, e onde está, por sinal, um avô do poeta Castro Alves, o major José Antônio da Silva Castro, o pai de Quitéria vai descobri-la como que por acaso - mas não a convence a voltar para casa.
Mulher feita, legalmente emancipada, sabendo bem o que quer, Maria Quitéria consome-se de amor pela Pátria prestes a nascer. Assumindo a sua condição feminina, livra-se, por fim, dos constrangimentos da simulação. É, doravante, o soldado Medeiros, nome com que se apresentara à tropa. Os milicianos, a princípio ousados, aprendem a respeitá-la. Por baixo, aquele soldado de voz macia veste saias, mas é homem, na coragem, no trato, no companheirismo. Quitéria torna-se exemplo e, mais que isso, mascote da tropa interiorana de resistência.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quitéria, Passa pra dentro cuidar de seus irmãos.

As Meras ou Parcas, entidades da mitologia greco-romana responsáveis pelo Destino, foram caprichosas com Maria Quitéria: teceram-lhe a vida em duas metades bem distintas. A primeira, clara e solar, cobre o período da infância e adolescência; a outra, obscura e trágica, começa no seu retorno da Corte, após a condecoração que lhe concede o Imperador Pedro I, por sua participação e bravura nas lutas da Independência da Bahia, que consolidaram a Independência do Brasil.
Infância mais ou menos feliz, marcada pelas correrias, caçadas de bodoque aos pássaros, cavalgadas em animais em pelo, no Sítio do Licorizeiro, perto de São José das Itapororocas, então pertencente à Comarca de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira, e em 1832 desmembrada para Feira de Santana.
Maria Quitéria nasce, provavelmente, em 1792. A casa era pequena, mas a planície larga convidava ao movimento do corpo instigado pelas maquinações do imaginário. Uma das três Parcas decidiu enredar-lhe  logo os fios da vida. A morte da mãe, que se chamava Quitéria Maria, em 1803, vem tolher a vida despreocupada e folgazã da menina, forçando-a a cuidar dos dois irmãos menores.
O pai, Gonçalo Alves de Almeida, leva apenas cinco meses antes de convolar núpcias com Eugênia Maria dos Santos, que não lhe dá filhos e falece pouco depois. Com esta primeira madrasta Maria Quitéria não teve tempo de gerar atritos. Mas o terceiro casamento de Gonçalo, com Maria Rosa de Brito, cria tensões e hostilidades, porque a nova madrasta pretende opor um freio à vida independente da menina endiabrada e, ao mesmo tempo, acentuar-lhe a noção dos deveres domésticos. O pai forma segunda prole, mais numerosa, e a uma de suas meio-irmãs, Teresa Maria, a futura heroína do 2 de Julho baiano haverá de afeiçoar-se.
O lavrador Gonçalo prospera; não é de todo rude e destrambelhado. Muda-se para uma fazenda a Serra da Agulha, mais ampla, com uma casa-grande e terras mais produtivas. Cultiva algodão, cria gado. Mas a vida continua isolada, sua rotina só vem a ser quebrada pela passagem de viajantes ocasionais e  conversas de tropeiros, a feira semanal, os passeios pelos campos, as missas. Admiradores masculinos, Maria tem muitos, porém não vê futuro nos compromissos insinuados.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Maria Quitéira - A liberdade é um bem de poucos...

Eu gostaria de entrar nua no rio, caso estivesse no sítio do meu pai. Mas estou aqui  entre homens, somos todos soldados, e o banho no Paraguaçu é forçado. Os portugueses de uma canhoneira bombardearam Cachoeira, então um bando de Periquitos, e entre eles eu e mais cinco ou seis mulheres, entramos no rio, de culote, bota e perneira, dólmen abotoado e baioneta calada.
Queríamos que os agressores desembarcassem para o combate em água rasa da margem. E eles vieram, aos brados. Traziam armas brancas. Alguns as mordiam com os dentes. O encontro deu-se num banco de areia, com água pela cintura. Senti quando a água fria subiu pelas pernas, abraçou as coxas e espalhou-se pelas virilhas.
Um toque frio, desagradável. Com o calor da luta, tornou-se morno. E houve um instante em que eu tinha água pelos seios. Senti que os mamilos se enrijeciam sob a túnica. Pensei outra vez no sítio, na rede em que costumava embalar-me. Ali tudo era cálido, os panos convidavam ao sono. Aqui, luta-se pela vida, pela nossa Cachoeira, pela Pátria.
Mas uma voz secreta me sopra que também luto por mim. Estou guerreando, sim, para libertar Maria Quitéria de Jesus Medeiros da tirania paterna, dos sofridos afazeres domésticos, da vida insossa. Ah, eu combato, com água no nível dos peitos, pela libertação da Mulher, pela nova Mulher que haverá de surgir.
Minha baioneta rasga o ventre de um português que não quer reconhecer a Independência do Brasil gritada, lá no Sul, pelo Imperador D. Pedro.

sábado, 6 de novembro de 2010

QUANDO TUDO ACONTECEU...


CRONOLOGIA




1807: Primeira invasão francesa em Portugal, comandada por Junot; em fuga, a família real e a corte portuguesa embarcam para o Brasil.

1808: O príncipe-regente (futuro D. João VI) decreta a abertura dos portos brasileiros a todas as nações amigas.

1816: D. João VI eleva o Brasil à condição de Reino Unido ao de Portugal; o Brasil deixa, portanto, de ser uma colônia.

1820: Revolução liberal no Porto e levantamento em Lisboa. Estes acontecimentos refletem-se no Brasil, cindindo a sociedade em dois blocos inconciliáveis: um é integrado por portugueses e brasileiros constitucionalistas, também por brasileiros independentistas; outro é integrado por militares e dignitários portugueses, conservadores que ambicionam ver o Brasil regredir à condição de colônia.

1821: Em 26 de Abril D. João VI regressa a Portugal, onde os revolucionários liberais exigem a sua presença; no Rio de Janeiro, como príncipe-regente, fica o seu filho D. Pedro.

1822: Disfarçada de homem, Maria Quitéria alista-se como soldado voluntário. Em
Julho, uma canhoneira portuguesa, fundeada na barra do Paraguaçu, alveja a cidade de Cachoeira, reduto dos independentistas baianos. D. João VI exige que o filho regresse imediatamente a Portugal; contrariando as ordens do pai, D. Pedro fica e a 7 de Setembro dá o chamado grito do Ipiranga, Independência ou Morte! A 12 de Outubro é aclamado Imperador do Brasil, com o título de D. Pedro I.

1823: A 2 de Julho, na Bahia, as forças independentistas batem definitivamente as tropas portuguesas comandadas pelo general Madeira de Melo. Maria Quitéria é a mais louvada heroína destas guerras pela independência do Brasil. 

1825: Por mediação da Inglaterra, a 29 de Agosto Portugal reconhece oficialmente a independência do Brasil.

1853 : Maria Quitéria morre nas imediações de Salvador.
1792: Ano provável do nascimento de Maria Quitéria de Jesus Medeiros na Comarca de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira (Feira de Santana), Bahia, Brasil.